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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Saiba tudo num artigo cativante, da autoria de Adriana Gonçalves em Blonde and Heels - Vida Organizada de Thais Godinho, uma edição Castor de Papel

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Vida Organizada de Thais Godinho | LIVROS


Estou muito contente, consegui acabar de ler com atenção o livro da Thais Godinho, autora do blog Vida Organizada. Admito que demorei algum tempo até acabar de ler. Mas, realmente este mês foi um pouco agitado e nem sempre tive tempo para todos os dias ler. 
Quem segue o Blonde and Heels, sabe o quanto gosto deste blog e de todas as dicas que a Thais dá. Logo que recebi o livro, coloquei a fotografia instagram (podem ver aqui) e para minha surpresa, a própria Thais partilhou essa mesma fotografia (podem ver aqui), fazendo referência à sua primeira publicação em Portugal. Como podem imaginar, ainda deu mais vontade de ler o livro.

Todos os dias tento implementar um pouco à minha maneira o método de organização feito por ela, no Evernote. Para os mais curiosos e que ainda não leram, podem consultar os artigos que já publiquei a respeito do Evernote: O que é o Evernote e como funciona? e  Como organizo o meu Evernote


O Vida Organizada foi publicado agora em 2015, pela 4 Estações Editora, e foi escrito pela Thais Godinho, que é brasileira, blogger, organizadora profissional, publicitária, escritora,  especialista em produtividade, gestão do tempo e organização. O livro tem como missão ajudar os leitores a realizarem os seus próprios sonhos por meio da organização da sua própria vida, permitindo assim, ganhar métodos que ajudem a concretizar objetivos de vida.

Ao longo do livro, a Thais ensina-nos, através de uma linguagem simples os seus métodos de organização e faz-nos ao mesmo tempo pensar sobre alguns aspectos da nossa vida. Conseguimos com alguns exercícios que vai dando ao longo do livro, perceber áreas de foco, objetivos que queremos cumprir e sobretudo, planear a nossa vida.


É um livro que se lê muito bem e que nos faz refletir sobre aquilo que queremos, desejamos e como vamos organizar essas metas para as conseguirmos atingir com eficácia.Sei que já o li, mas irei reler novamente pois é sempre um aprendizado e é sobretudo um manual para quando nos estamos a sentir totalmente fora de controle ou desorganizados.
Recomendo sobretudo para aquelas pessoas que não conseguem arranjar tempo (ou pensam que não conseguem), para quem gosta de produtividade, organização e eficácia.

Além do livro, podem sempre consultar o blog dela (aqui) que está pelo menos sempre atualizado e com novas dicas super interessantes e que acreditem, dão bastante jeito para o nosso quotidiano.


Desde já quero também agradecer à 4 Estações Editora, que me enviou o livro antes mesmo do lançamento para o mercado. Para quem nunca ouviu falar, a editora 4 Estações é o mais recente projeto de Mário Mendes de Moura, editor durante 60 anos em Portugal, Espanha e Brasil. Em Portugal é de referir o seu legado na Pergaminho, Arte Plural, Bico de Pena e Vogais & Companhia. Uma muito obrigada e uma boa continuação de lançamentos e projetos no futuro.




Já leram este livro? O que acharam?

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Acordei como acordam os tolos, cheia de felicidades.
Palavra Sorriso
Imagina, há uma hora atrás , encontrei uma flor,
perdida dentro de uma palavra.
E a palavra era sorriso.
E esta palavra dava cor, forma e substância ao teu olhar. 

Sim, eu sei que o teu olhar sempre é de dias futuros,
e de promessas bem-vindas.
Assim, sei a falta que me faz um pouco de esperança.


Esperança nos pequenos gestos, 
e em todos os nossos incertos despertares.
Que acordar não é uma garantia...
E se não acordo? O que fazes? 
Se não entro de rompante na tua manhã, 
mal amanhecida? 
Mas felizmente sempre acordo,
como quem abre uma porta e sai para a rua,
desta casa de sonhos...( pág. 24)
Ione França
Uma edição da 4Estações-Editora
Nas Livrarias ( PVP 12,72€) ou www.castordepapel.pt




domingo, 22 de fevereiro de 2015

Ione França. Acordei como acordam os tolos, cheia de felicidades.4Estações-Editora. Na Fnac Cascais Shopping.

Neste novo livro, Acordei como Acordam os Tolos,Cheia de felicidades, Ione França apresenta uma coletânea de textos, que intitula de Cantos, reflexões sobre o seu quotidiano, em prosa poética.
Poesia madura e de grande sensibilidade e espírito crítico que por vezes nos desafia. Sempre profunda, perturbadora e corajosa.
Magicamente, a autora envolve as palavras com mantos diversos, seja o da fantasia ou o da crueldade, o da angústia ou da ternura, o da dor ou da alegria, o da revolta ou da compreensão.
Cada palavra é como a peça de um puzzle que a poetisa ensaia armar para construir um quadro que revela a sua inquietude pela mesquinhez e crueldade da alma humana, mas também o seu conhecimento e aceitação da beleza e das surpresas do mundo em que vivemos.
À guisa de subtítulo, a autora escreve: " Vamos falar ou sentir a doçura das palavras." E, assim, canta: "Acendo incensos imaginários e em quietude construo a minha oração, construo com a visível presença do meu eu, a delicadeza da minha respiração e com as grandes covardias às quais me permito. E assim delicada, viva, covarde e presente, ofereço-me em preces." Ou ainda: " Encontrei um peda-
ço de pele e de alma. Da pele fiz corpo, da alma palavra.
Palavra  quieta. Assim posso sentir como uma espécie 
de doçura os dias que me inventam."  
MMM
www.castordepapel.pt

Mário de Moura (DeMOURA) mariommoura.blogspot.com O RAPTO DA EUROPA, NÃO POR ZEUS

 24. O RAPTO DA EUROPA, NÃO POR ZEUS
  O dia de ontem, 20 de fevereiro, foi um dia que ficará para a história como o dia de luto para a Europa, o dia de Finados para a União Europeia, o dia do réprobo geral à Alemanha e o dia da vergonha para Portugal.
   O dia de luto para a Europa, porque o presidente do Eurogrupo (o Sr. Jeroen Dijsselbloem), num momento crucial para esta instituição, se acobardou perante Berlim.
   O dia de Finados para a União Europeia, porque o Presidente da Comissão Europeia (Jean-Claude Juncker), um experimentado político, retrocedeu o seu apoio à causa grega e foi incapaz de impor a sua manifesta vontade a favor da antiausteridade na Europa.
  O dia do réprobo à Alemanha, porque o seu Ministro das Finanças (Wolfgang Schäuble) e a sua acólita (Angela Merkel) conseguiram travar um processo de repúdio aos nefastos programas de austeridade impostos a alguns países europeus, através do qual os gregos pediam apoio para programas mais sensatos e humanos.
  O dia da vergonha de Portugal, pela subjugação canina do seu incompetente Primeiro-Ministro (Coelho) ao lamber as botas do diabólico  ministro alemão.
  Como a maioria dos europeus, admirei a coragem e o destemor de Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis ao tentarem a saída da Grécia do programa dito de assistência, que na realidade é de agiotagem do capital internacional, não se negando a pagar a dívida do país, mas sim a equacionar a sua amortização para abrandar o sufoco e a miséria a que foi lançado uma boa parte do povo grego, e não só  some-se Itália, Espanha, Portugal, Chipre etc.
  O certo é que a Alemanha que saiu destruída da 2ª Grande Guerra, provocada por ela, que no pós-guerra recebeu um colossal auxílio financeiro dos E.U. e de outros países europeus, tendo depois essa dívida perdoada, incrivelmente, hoje domina totalmente a dita União Europeia, económica e politicamente. Há alguma razão? Tem algum cabimento? E faz sentido que menospreze claramente os países europeus do Sul, a que chama de preguiçosos e gastadores? Quando a Itália, a França, a Grécia, a Espanha eram vigorosas culturas, que deram coesão e prestígio à Europa, a Alemanha era um país de bárbaros.
  O belo sonho da Europa unida, tão bem idealizado, está a ser torpedeado sem escrúpulos ou hesitações por quem dele devia melhor cuidar. Não estará na altura destes indesejáveis países do Sul saírem em conjunto da União Europeia e formarem a União Europeia do Sul, com a sua moeda e economia próprias? Sem o peso burocrático e dispendioso de Bruxelas. Dessa forma a importação de produtos alemães e de outros países do Norte da Europa seriam tributados, dando melhores oportunidades aos dos seus próprios países. A Europa do Sul não precisa dos carros, das cervejas e dos alfinetes alemães.
  E já não estaria na hora dos povos ‘gastadores’ do Sul começarem a boicotar os produtos alemães? Não haverá alguém que encabece esse movimento desde já?
Num século a Alemanha provocou três sangrentas guerras, e perdeu-as. Mas deixou sempre muita miséria, mortes e destruição. Atualmente está de novo a provocar miséria, mortes e destruição. Como não considerar os bairros miseráveis onde se amontoam milhões de habitantes destes países do Sul da Europa como novos campos de concentração, onde inocentes morrem de fome, de frio e de doenças, sem terem culpas, e apenas para que os capitalistas alemães enriqueçam? Que devemos à Alemanha? O Requiem de Mozart para acompanhar os nossos mortos?
  Ao que parece a cruz suástica esconde-se agora no símbolo do euro.
 Estamos agora à mercê do despeito, da crueldade e do cinismo do prepotente senhor Schäuble, como há décadas estivemos de um outro louco de bigodinho de triste memória. Não estará agora na hora de rever O Grande Ditador, de Chaplin?
 Como é possível que um ministro Alemão se atreva a ladrar que o povo grego não deveria ter eleito Tsipras? Que audácia e que desrespeito pelos outros povos! E como se não bastasse, depois da reunião de ontem, em que teimosa e cruelmente impediu que os outros países analisassem com atenção e democraticamente a proposta grega, ainda teve o atrevimento de dizer: “E agora o que é que o Sr. Tsipras vai dizer ao povo grego?”
  Como é possível que mais de duas dúzias de chefes de Estado europeus ‘soberanos’ fiquem calados perante estas incríveis afirmações?
  Não quero aqui e agora falar do Presidente da República de Portugal e das suas habituais gafes políticas, que bem contribuem para a nossa vergonha. Esperemos pacientemente que ele volte para o seu Algarve.
  Mas não posso deixar de falar da insensatez do Primeiro-Ministro (evitei dizer nosso), que não percebe que o ‘caso’ grego pode fazer toda a diferença, para melhor ou para pior, para a crise portuguesa. Penso que possivelmente ele não ganhará as próximas eleições (acredito nos portugueses), mas o que me pergunto é o que  acontecerá a ele posteriormente? Será julgado em Tribunal Criminal por tantas mortes e destruição que causou, ou simplesmente irá roçar as suas calças em Bruxelas ou numa grande empresa?
  Já disse que, para Portugal, 20 de fevereiro é o dia da vergonha pelo comportamento servil de Coelho à dupla alemã, mas não só. Mais caricato ainda, é a Ministra das Finanças de Portugal prestar-se ao papel de panfletária a favor da austeridade apresentando o país como um exemplo de sucesso do programa da troika, um desrespeito aos muitos milhares que aqui estão na miséria e desempregados, para agradar aos alemães.
  Não sei se se lembram de Fritz Lang no início da sua carreira de cineasta nos estúdios da UFA, no seu país, a Alemanha (Dr. Mabude e M de Matar)? Nos seus filmes dessa época apareciam umas figuras disformes e pérfidas que aterrorizavam as plateias. Depois ele foi para os Estados Unidos onde dirigiu belíssimos filmes, entre eles o corajoso Os Carrascos também Morrem (sobre o assassinato de crianças pelos nazis, estando estes ainda no poder,1943).  Parece que Lang deixou à solta, no seu país natal, descendentes desses monstrinhos.
  Não, não, a mítica Europa não foi raptada por Zeus, mas por Schäuble e Merkel!

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

As Boas Leituras da 4Estações-Editora.


As Boas Leituras da 4Estações-Editora.

Acordei como acordam os tolos, cheia de felicidades (2015 ...

https://folhasdepapel.wordpress.com/2015/02/02/4138/


                          Canto Primeiro


Agora recordo que acordei como acordam os tolos, indefinível.
Respirei um bocado de curiosidade pelo minuto seguinte e, então, já estava perdida.
Este minuto levou-me a outras horas, a outras décadas, por isto sinto-me algo enxovalhada, com mau hálito, a precisar do sorriso de uma flor.
Caminho até à janela e a Violeta Africana, bem, foi deportada para África, imigrante ilegal.
Sinto-me vazia. Escuto o tiquetaque e sei que é o tempo que não perdoa e me abandona...

www.castordepapel.pt 
Nas Livrarias.




          

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Mário de Moura . Da Beleza e da Veracidade.

mariommoura.blogspot.com
Mario de Moura   -   DeMOURA
          mariommoura.blogspot.com

22.  DA BELEZA E DA VERACIDADE
  Um internauta tropeçou no meu blogue e depois fez reparos ao meu post do final do ano, em que publiquei um muito conhecido e belo texto, ‘Desiderata’, bem adequado à quadra natalícia. O leitor chamava-me a atenção para o facto de esse texto não ter sido gravado na pedra na velha Igreja de São Paulo, em Baltimore, em 1692 (como eu mencionei). Afirma que ‘Desiderata’ foi escrita em 1927 por Max Ehrman, um poeta, mas por ter sido divulgada por um padre levou a esse erro frequentemente cometido.
  Sinceramente, eu já sabia dessa versão, contudo não a mencionei: primeiro, por não acreditar muito nela, várias pessoas afirmam terem fotografado este texto gravado na pedra; segundo, porque é mais interessante que seja um texto com alguns séculos e gravado na pedra no interior de uma velha igreja do que um artigo publicado num jornaleco de província; terceiro, porque o que me importa é a beleza e a força da sua mensagem. Se foi X ou Y que o escreveram, no séc. 17 ou 20, pouco me importa.
  Imaginem que encontro uma bela poesia de Fernando Pessoa gravada na pedra no interior de uma velhíssima igreja alentejana, sem assinatura e datada de 1825. Entusiasmado divulgo-a acrescentando que é anónima e que tem quase cem anos. Deixa de ser menos bela se alguém a identificar como sendo do nosso maior poeta e de ter sido encontrada no célebre baú?
   Há um outro caso similar, que também vem levantando controvérsias. É um outro texto lindíssimo e que deveria ser divulgado nas escolas pela sua beleza, força e atualidade, um verdadeiro manifesto ecológico. Estou a falar da ‘Carta do Chefe índio (na realidade cacique), Seattle, ao presidente dos Estados Unidos, Franklin Pierce’, em 1854, quando este lhe propôs comprar uma grande área onde habitava a sua tribo e confiná-los a uma reserva.
 De novo a mesma questão. A carta não teria sido escrita diretamente pelo chefe índio Duwamish, de nome Seattle (as terras em questão são quase na fronteira do Canadá), ao presidente americano, mas sim por um tal Dr. Henry Smith que assistiu à reunião desse respeitado cacique com a sua tribo para discutir a oferta do presidente americano. Esse Dr. Smith ficou tão impressionado com a eloquência tão brilhante, lúcida e emocionante do cacique e com o profundo respeito que inspirava ao seu povo, para além da coragem das suas palavras, que anotou uns apontamentos, na base dos quais publicou essa ‘falsa carta’ num jornal (Seattle Sunday Star), em 1887, que daí em diante passou a ser conhecida como ‘A Carta do chefe Seattle ao Presidente dos Estados Unidos’ até aos nossos dias.
   Mas o que importa? O que vale é a beleza e a importância do texto. As palavras, sim, só podem ter sido pronunciadas por um índio genuíno, velho e sábio. A ironia, a lucidez, o amor à terra e aos animais, a coragem, explodem nestas linhas e tornam-nas perenes.
  Adiante poderão ler uma versão divulgada na década de setenta do discurso do cacique Seattle, e após o encarregado dos negócios indígenas do governo norte-americano ter feito a proposta de adquirir as terras da tribo Duwamish, texto este traduzido pela equipe de ‘Floresta Brasil’, e mantido inalterável, no estilo e na ortografia.

O pronunciamento do cacique Seattle
O grande chefe de Washington mandou dizer que desejava comprar a nossa terra, o grande chefe assegurou-nos também de sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não precisa de nossa amizade.
Vamos, porém, pensar em sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará nossa terra. O grande chefe de Washington pode confiar no que o Chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na alteração das estações do ano.
Minhas palavras são como as estrelas que nunca empalidecem.
Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia nos é estranha. Se não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água, como então podes comprá-los? Cada torrão desta terra é sagrado para meu povo, cada folha reluzente de pinheiro, cada praia arenosa, cada véu de neblina na floresta escura, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega consigo as recordações do homem vermelho.
O homem branco esquece a sua terra natal, quando - depois de morto - vai vagar por entre as estrelas. Os nossos mortos nunca esquecem esta formosa terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia - são nossos irmãos. As cristas rochosas, os sumos da campina, o calor que emana do corpo de um mustang, e o homem - todos pertencem à mesma família.
Portanto, quando o grande chefe de Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, ele exige muito de nós. O grande chefe manda dizer que irá reservar para nós um lugar em que possamos viver confortavelmente. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, vamos considerar a tua oferta de comprar nossa terra. Mas não vai ser fácil, porque esta terra é para nós sagrada.
Esta água brilhante que corre nos rios e regatos não é apenas água, mas sim o sangue de nossos ancestrais. Se te vendermos a terra, terás de te lembrar que ela é sagrada e terás de ensinar a teus filhos que é sagrada e que cada reflexo espectral na água límpida dos lagos conta os eventos e as recordações da vida de meu povo. O rumorejar d'água é a voz do pai de meu pai. Os rios são nossos irmãos, eles apagam nossa sede. Os rios transportam nossas canoas e alimentam nossos filhos. Se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar e ensinar a teus filhos que os rios são irmãos nossos e teus, e terás de dispensar aos rios a afabilidade que darias a um irmão.
Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um lote de terra é igual a outro, porque ele é um forasteiro que chega na calada da noite e tira da terra tudo o que necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga, e depois de a conquistar, ele vai embora, deixa para trás os túmulos de seus antepassados, e nem se importa. Arrebata a terra das mãos de seus filhos e não se importa. Ficam esquecidos a sepultura de seu pai e o direito de seus filhos à herança. Ele trata sua mãe - a terra - e seu irmão - o céu - como coisas que podem ser compradas, saqueadas, vendidas como ovelha ou missanga cintilante. Sua voracidade arruinará a terra, deixando para trás apenas um deserto.
Não sei. Nossos modos diferem dos teus. A vista de tuas cidades causa tormento aos olhos do homem vermelho. Mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que de nada entende.
Não há sequer um lugar calmo nas cidades do homem branco. Não há lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das asas de um inseto. Mas talvez assim seja por ser eu um selvagem que nada compreende; o barulho parece apenas insultar os ouvidos. E que vida é aquela se um homem não pode ouvir a voz solitária do curiango ou, de noite, a conversa dos sapos em volta de um brejo? Sou um homem vermelho e nada compreendo. O índio prefere o suave sussurro do vento a sobrevoar a superfície de uma lagoa e o cheiro do próprio vento, purificado por uma chuva do meio-dia, ou recendendo a pinheiro.
O ar é precioso para o homem vermelho, porque todas as criaturas respiram em comum - os animais, as árvores, o homem.
O homem branco parece não perceber o ar que respira. Como um moribundo em prolongada agonia, ele é insensível ao ar fétido. Mas se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar reparte seu espírito com toda a vida que ele sustenta. O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro sopro de vida, também recebe o seu último suspiro. E se te vendermos nossa terra, deverás mantê-la reservada, feita santuário, como um lugar em que o próprio homem branco possa ir saborear o vento, adoçado com a fragrância das flores campestres.
Assim pois, vamos considerar tua oferta para comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, farei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como se fossem seus irmãos.
Sou um selvagem e desconheço que possa ser de outro jeito. Tenho visto milhares de bisões apodrecendo na pradaria, abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem em movimento. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais importante do que o bisão que (nós - os índios) matamos apenas para o sustento de nossa vida.
O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Porque tudo quanto acontece aos animais, logo acontece ao homem. Tudo está relacionado entre si.
Deves ensinar a teus filhos que o chão debaixo de seus pés são as cinzas de nossos antepassados; para que tenham respeito ao país, conta a teus filhos que a riqueza da terra são as vidas da parentela nossa. Ensina a teus filhos o que temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo quanto fere a terra - fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem sobre eles próprios.
De uma coisa sabemos. A terra não pertence ao homem: é o homem que pertence à terra, disso temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará.
Os nossos filhos viram seus pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio, envenenando seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias - eles não são muitos. Mais algumas horas, menos uns invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta terra ou que têm vagueado em pequenos bandos pelos bosques sobrará, para chorar sobre os túmulos de um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.
Nem o homem branco, cujo Deus com ele passeia e conversa como amigo para amigo, pode ser isento do destino comum. Poderíamos ser irmãos, apesar de tudo. Vamos ver, de uma coisa sabemos que o homem branco venha, talvez, um dia descobrir: nosso Deus é o mesmo Deus. Talvez julgues, agora, que o podes possuir do mesmo jeito como desejas possuir nossa terra; mas não podes. Ele é Deus da humanidade inteira e é igual sua piedade para com o homem vermelho e o homem branco. Esta terra é querida por ele, e causar dano à terra é cumular de desprezo o seu criador. Os brancos também vão acabar; talvez mais cedo do que todas as outras raças. Continuas poluindo a tua cama e hás de morrer uma noite, sufocado em teus próprios dejetos.
Porém, ao perecerem, vocês brilharão com fulgor, abrasados, pela força de Deus que os trouxe a este país e, por algum desígnio especial, lhes deu o domínio sobre esta terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é para nós um mistério, pois não podemos imaginar como será, quando todos os bisões forem massacrados, os cavalos bravios domados, as brenhas das florestas carregadas de odor de muita gente e a vista das velhas colinas empanada por fios que falam. Onde ficará o emaranhado da mata? Terá acabado. Onde estará a águia? Irá acabar. Restará dar adeus à andorinha e à caça; será o fim da vida e o começo da luta para sobreviver.
Compreenderíamos, talvez, se conhecêssemos com que sonha o homem branco, se soubéssemos quais as esperanças que transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais as visões do futuro que oferece às suas mentes para que possam formar desejos para o dia de amanhã. Somos, porém, selvagens. Os sonhos do homem branco são para nós ocultos, e por serem ocultos, temos de escolher nosso próprio caminho. Se consentirmos, será para garantir as reservas que nos prometestes. Lá, talvez, possamos viver os nossos últimos dias conforme desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará vivendo nestas floresta e praias, porque nós a amamos como ama um recém-nascido o bater do coração de sua mãe.
Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueças de como era esta terra quando dela tomaste posse: E com toda a tua força o teu poder e todo o teu coração - conserva-a para teus filhos e ama-a como Deus nos ama a todos. De uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus, esta terra é por ele amada. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.
                                                        ***

 Ao ler esta carta (pronunciamento) dá-me vontade de ser cineasta e fazer uma curta-metragem com base nela. O filme enfatizaria várias vezes a imagem do cacique Seattle a falar à sua numerosa tribo, uma multidão de rostos, focando de quando em quando os mais expressivos, exibiria a floresta ao fundo com as suas imponentes e seculares árvores, depois adentrava nela e explorava as frondosas copas com os seus pássaros, esquilos e outros pequenos animais, não deixaria de valorizar as altas montanhas ainda com neve, assim como rios de água cristalina precipitando-se em pequenas cascatas,  ainda uma imensa planície que servia de pasto para gazelas e veados, e no céu a majestosa águia e muitas outras aves, até borboletas a bailar caprichosamente.
   Imagino as imagens a acompanharem passo a passo as palavras corajosas do velho índio revelando as cenas que ele denuncia.
  Seria, creio, um belo e educativo documentário para passar nas escolas. Claro, uma utopia.
                                                   ***



terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Acordei como acordam os tolos, cheia de felicidades de Ione França.

DOMINGO, 25 DE JANEIRO DE 2015

Acordei como Acordam os Tolos, Cheia de Felicidades (Ione França)

Num olhar sobre o mundo que mistura a magia e o impossível com as coisas mais ou menos banais do quotidiano, estes são textos que contemplam a vida, no seu mais belo e no que tem de mais cruel. Olhares que vêem de uma forma inesperada, que misturam os cenários mais improváveis com a simplicidade dos sonhos e dos afectos. São textos cuja soma é uma perspectiva bastante pessoal, e, ainda assim, particularmente lúcida, sobre o que é o mundo dentro de cada um.
Um dos aspectos mais cativantes neste livro é que cada um dos textos é, por si mesmo, uma forma completa e, ainda assim, o conjunto forma um todo maior que a soma das partes. Há uma impressão de unidade, de perspectiva comum a todos os textos, uma voz própria que se reconhece ao longo de todo o livro. E é interessante notar que, seja na contemplação de um amor pouco familiar, num relance às noites mais sombrias da vida ou numa perspectiva própria do que é - ou do que devia ser - a vida quotidiana, há uma personalidade coesa que se reflecte nas ideias.
E das ideias sobressai um outro ponto forte. Se há, de facto, questões que se repetem nalguns dos textos, o que é particularmente evidente para quem ler o livro todo, ou em grande parte, de seguida, há, ainda assim, uma boa diversidade. De temas, de pontos de vista e de formas de entender cada situação. Esta diversidade, conjugada com a tal impressão de unidade do sujeito, misturam-se num equilíbrio delicado, formando um todo coeso, mas em que cada ideia é válida por si mesma. E, por isso, um conjunto mais complexo.
Por último, importa ainda referir a forma de escrita, e também nesta se destaca o equilíbrio. Entre frases simples e outras de complexidade surpreendente, imagens facilmente reconhecíveis e outras tão improváveis que não podem deixar de surpreender, percursos descritivos e momentos de introspecção. Tudo isto nas medidas certas, e na base de uma construção mais ampla, em que também em termos de escrita os traços que há em comum entre os vários textos se tornam especialmente evidentes.
A soma de tudo isto é, portanto, um livro equilibrado, em que a diversidade de temas se conjuga com a unidade da voz que os aborda, para dar forma a uma leitura cativante e surpreendente. Vale a pena ler.

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